Em tempos de debates econômicos acalorados, melhorar as aptidões profissionais é um dos raros consensos por todo o mundo. A globalização e o progresso tecnológico têm tornado a produtividade mais dependente de um conjunto de aptidões mais amplo, complexo e difícil de ser alcançado.

Na América Latina, a falta de uma reserva de trabalhadores capacitados dificulta a superação da cilada da renda média. Isso contrasta com a experiência da maioria das economias europeias e asiáticas, que têm obtido aumentos constantes na renda per capita ao aprimorarem o estoque e a qualidade da educação e das aptidões e desenvolverem um ambiente favorável à inovação.

Investir em qualificação profissional também ajudaria a tratar a desigualdade, visto que grandes diferenças na produtividade acompanham grandes diferenças nos salários. Sem esse investimento, os vencedores - isto é, as empresas mais inovadores e suas equipes altamente qualificada - continuarão a tomar tudo.

O que sabemos das qualificações profissionais na América Latina?

Mais de quatro em cada dez empresas na América Latina dizem ter dificuldade em encontrar trabalhadores com as aptidões apropriadas, segundo uma pesquisa do ManpowerGroup. Empresas na Argentina são as mais atingidas, com 59% se esforçando para contratar um equipe com as aptidões apropriadas; na Colômbia, esse número é de 50%, e no Perú, 49%. Hoje, por mais de uma década - isto é, durante o boom econômico dos anos 2000, a desaceleração desde 2012, a recessão entre 2015 e 2016, e a atual recuperação - a América Latina tem estado classificada como a região com o maior déficit de qualificação profissional no mundo.

O que fazer para preencher essa lacuna?

O que deveríamos fazer? Os programas de currículo de ensino e de capacitação profissional deveriam fornecer o treinamento tecnológico, como também as aptidões fundamentais. Eles são vitais para a vida das pessoas, ao ajudá-las a mudar de emprego (se elas preferirem) e adaptá-las às condições externas que se alteram. Deveria haver uma combinação do aprendizado em sala de aula com o aprendizado no ambiente de trabalho, das soft skills com as aptidões técnicas, complementada por serviços de pesquisa de emprego.

O "x" da questão está em re-skilling e upskilling. As aptidões profissionais da força de trabalho de hoje serão as responsáveis por comandar a economia nas duas próximas décadas. Por isso, a coleta de informações sobre as aptidões individuais e sobre as aptidões necessárias para o ambiente corporativo é um dever.

Como isso deveria ser feito? Isso requer o envolvimento dos empregadores em todos os níveis: coleta informações para design, implementação e avaliação do treinamento; design de programas; e iniciativas co-financiadas. Isso deve ser implementado sob uma abordagem de todo o governo que envolva educação, emprego, inovação, planejamento e ministros de finanças.

Image: ManpowerGroup, 2016/2017 Talent Shortage Survey

Bons modelos na América Latina

Deve-se admitir que essas recomendações são mais fáceis de serem ditas do que feitas. No entanto, não vamos recair sobre uma tradição latino-americana de fracasomania. Alguns programas de capacitação para jovens na Argentina (Jóvenes con Más y Mejor Trabajo), Colômbia (Jóvenes en Acción) ou Brasil e Perú (ProJoven) cumprem quase todos os requisitos, e as suas avaliações de impacto mostram bons resultados na empregabilidade, confiabilidade e ganhos.

O envolvimento do setor privado também está crescendo. A saber do México, onde programas de upskilling e reskilling estão se difundindo. Em uma iniciativa de mulheres no marketing, serviços de vendas e de atendimento ao cliente viram seus salários se multiplicarem por cinco vezes. Nas indústrias de automóveis e de máquinas, que são tradicionalmente afetados pela escassez de aptidões, programas de treinamento estão sendo desenvolvidos seguindo o exemplo do instituto de treinamento da Volkswagen. E as instituições públicas no México e no Peru estão dando passos em direção a uma coordenação e a uma abordagem de todo o governo para as aptidões estratégicas.

Olhando para frente? Melhores dados para melhores ações

As previsões para a força de trabalho a longo prazo são extremas: a tecnologia tomando nossos empregos, os robôs substituindo motoristas, a ameaça de um mundo sem trabalho. À medida que as necessidades de aptidões mudam cada vez mais rápido, algumas estatísticas sugerem que empregadores nem sempre sabem de quais aptidões eles necessitam inclusive para daqui 18 meses, não somente a longo prazo.

Por isso, precisamos investir nas capacidades de antecipar as necessidades de aptidões, detectar as futuras incompatibilidades de aptidões e construir os processos que garantam que essa informação está eficientemente usada nas tomadas de decisão. Infelizmente, esse campo é mais complexo e menos estudado, logo, há poucos bons modelos.

Por esse motivo, ManpowerGroup Latin America e o Centro de Desenvolvimento da OCDE, com a Associação Nacional de Empresários da Colômbia (ANDI, em espanhol), lançaram recentemente uma pesquisa online para obter informação detalhada sobre déficit de qualificação na América Latina.

A informação é diretamente colhida das empresas, por país, por tamanho da empresa e por atividade (agricultura, comércio, comunicações e transporte, construção, fabricação, mineração e extração, e serviços). Esse ponto é crucial para o debate sobre a economia da pós-indústria que nós estaremos realizando no Fórum Econômico Mundial para a América Latina em São Paulo essa semana.

As empresas latino-americanas estão destacando um déficit de qualificação ainda mais agudo do que pensado anteriormente. Três em quatro empresas (de uma amostra de mais de 1200 empresas pela América Latina) dizem ter problemas em preencher vagas, embora haja disponibilidade de candidatos. Curiosamente, essa lacuna é maior entre as grande empresas (com mais de 250 empregados), nas quais quatro em cinco são afetadas por isso.

O déficit de qualificação afeta tanto a indústria quanto os serviços, os quais são essenciais para a agenda de aprimoramento e qualificação da economia da América Latina, como mostrado em estudos anteriores. Observando os resultados da indústria, quatro a cada cinco empresas da mineração e extração, da fabricação e dos serviços relatam esse déficit.

Quando empresas conversam sobre o déficit de qualificação, elas frequentemente se referem às soft skills. Entre as sete 'aptidões mais ausentes', inteligência emocional, habilidades de comunicação e pensamento crítico são mencionadas três vezes mais frequentemente do que habilidade de TI, e duas vezes mais do que conhecimento financeiro. Falar inglês encontra-se no meio do rank.

Aptidões são a nova moda, vamos investir

A economia atual necessita cada vez mais de aptidões complexas. Sistemas de educação formal estão se esforçando para fornecer soluções oportunas. O desprendimento entre a educação formal e as aptidões demandadas pelos negócios é sobretudo grave para as soft skills, que geralmente não são incluídas no currículo de educação formal.

As boa notícia é que a maioria dos governos, empresas e cidadãos na América Latina e por todo o mundo está cada vez mais ciente dessa prioridade. As aptidões se tornaram a tendência global das economias do século 21 para estimular crescimento e reduzir desigualdades. Esqueça sobre bitcoin, vamos investir em aptidões.